Teatro Municipal de Almada, 1998-2004

Almada Municipal Theatre, 1998-2004

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"[…] a cidade era difícil de simbolizar, […] não tinha áreas distintas. Uma senhora achou que ´Esta é uma das coisas mais penosas àcerca de Jersey City. Se alguém  viesse de longe até aqui, não existiria nada em relação ao qual se pudesse dizer: Oh! Tens de ver, é tão bonito!´"

(Kevin Lynch. 1960. A imagem da cidade)

Rodeado de edifícios pouco cuidados, resultantes da "explosão urbanística" um pouco casuística que como uma maldição atingiu todas as cidades  do país a partir do final dos anos 60, um lugar anónimo à espera de um qualquer acontecimento que pudesse articular sentidos, instituindo um ponto de partida para uma organização apreensível e nomeável.
Como atributo mais qualificado, uma fiada de árvores bordejando o limite da EscolaD. António da Costa, a nascente (neste troço apenas um caminho de peões, rampeado, seguindo o declive do terreno).
Eram árvores banais que no aleatório da sua disposição, junto ao gradeamento também banal da Escola, nos surgiram como uma das poucas hipóteses de constituição de um sítio, construído que fosse o lado oposto da rampa. Para esse lado, abrimos desfasados terraços (da cafetaria do átrio e do café concerto, situados acima), as árvores e o seu perfume participando, a partir daí, num troço curioso e mais exigente, no meio do que era um rarefeito baldio incompleto da cidade ainda nova.
O desenho acompanha a pendente natural do terreno para a disposição da sala principal,  com a inevitavelmente massiva caixa de palco a elevar-se na parte mais baixa de modo a diminuir o seu impacto, aproximando-a, simultaneamente, de um impasse já existente que passou a funcionar como acesso para cargas e descargas.
A entrada principal faz-se pela Prof. Egas Moniz onde se ergue a "cabeça" do edifício que seguindo os alinhamentos da rua fecha o topo do terreno com uma volumetria idêntica à das construções circundantes, numa atitude de recomendável aproximação.
Um corpo quadrado, sobrepondo a sala experimental à sala de ensaio (e repetindo a dimensão do palco principal), ocupa um canto da parcela, libertando pátios de luz no rodar das geometrias.
Uma ruela estreita (Beco dos Actores) contorna o Teatro, a poente, seguindo os cadastros vizinhos e possibilitando um novo atravessamento.
Ao "variado" programa somámos, redundamente, uma caracterização plástica das diferentes partes, construindo uma volumetria desejável. O revestimento a mosaico cerâmico vitrificado azul claro "embrulha" obsessivamente todo o conjunto de modo a "apertar", através da cor, brilho e textura, os dispersos e diferentes momentos que um organismo com esta complexidade gera e encerra.
A unidade assim encontrada fez nascer, quase naturalmente, a designação Teatro Azul que nos parece portadora do poder referido por Kevin Lynch:

"Mesmo a doação de um nome tem um determinado poder, desde que esse seja um nome conhecido e aceite. [...] se pretendermos tornar o nosso ambiente significativo, temos necessidade de uma tal coincidência de associação e de imaginabilidade" (Ibidem)